Faz tempo que me dei conta que lá na cidade onde morei quase toda minha vida, lá no sul, eu nunca convivi com nenhum estrangeiro, na universidade se falava de projetos multiculturais (muitas culturas que vivem e convivem de forma separada, sem trocas) e interculturalidade (diferentes culturas que convivem e interagem entre si), mas ao mesmo tempo na prática isso não era algo que se vivenciasse. Viver aqui em Barcelona me proporcionou ter o contato com gente do mundo todo, e vivenciar a interculturalidade ao ponto de adotar muitos hábitos e costumes, efetivamente deixando me contaminar com as culturas do mundo ao meu redor.
Em um pequeno passeio pelo meu bairro é possível ver pessoas das mais variadas nacionalidades, pessoas que já fazem parte do meu cotidiano e com quem compartilho o mesmo sentimento, estar longe de minha terra, ser tão estrangeiro como eles.
Ao mudarmos de país trazemos algumas identidades na bagagem, essas identidades à priori são coletivas, e isso é engraçado, pois antes de sair do meu país eu nunca havia me dado conta da carga cultural que implica dizer, por exemplo, sou mulher, latino americana, brasileira, gaúcha, etc., alguns destes coletivos que eu desconheço em sua plenitude e com os quais não me identifico plenamente, pois dentro destas categorias existe tanta pluralidade e particularidades que não posso me definir unicamente por elas. Mas penso que em muitas ocasiões essas identidades coletivas servem como uma espécie de escudo, de proteção, é como dizer que não estou só no mundo, pertence a este ou aquele grupo, ou ainda, uma forma de nos situarmos no mundo e situarmos os demais.
Mas nem sempre lidar com esses coletivos é tão positivo assim, porque também implica lidar com pré-conceitos e estereótipos dos mais variados. Vejam só que neste dia do curso, enquanto o palestrante comentava peculiaridades sobre outros países, ele mencionou que das mulheres brasileiras que vivem na Europa, 80% casam com homens europeus, não entrarei no mérito do por que, mas sendo eu parte desta estatísticas posso arriscar alguns dos motivos que isso acontece. Assim como eu, uma das mulheres que estava assistindo a palestra também deu a sua opinião, segundo ela isso se dá pela nossa fama!
E não pense que ela se referia da nossa fama de batalhadoras, carinhosas, alegres, etc., esse "nossa fama" era 100% pejorativo. Quando eu escuto essas coisas meu sangue ferve e em minha opinião, pessoas que tem esse tipo de idéia são pessoas
É engraçado como o mundo se move, se pensarmos que muitos de nossos antepassados deixaram para trás uma Europa em uma profunda crise e miséria e se aventuraram a desbravar um novo mundo com a esperança de uma nova vida, e hoje em dia o fluxo migratório é ao revés, somos nós que viemos ao velho mundo atrás de novas vivências e experiências e em muitos e muitos casos de uma melhor condição de vida.
Mas muitas vezes penso se para os meus antepassados as coisas foram tão difíceis quanto é hoje para a considerada, última imigração para Europa, pois vivemos tempos em que o imigrante é o que possui a pele mais sensível, é o que se queima primeiro quando o país não vai tão bem como é o caso deste momento de crise. Não tem emprego? Culpa do imigrante! Violência? Culpa do imigrante! Aumento da criminalidade? Sim o imigrante!
A imagem do imigrante como um coletivo social está relacionada a algo negativo, que é rejeitado e que se posiciona cada vez mais à margem, se distanciando de uma relação de convivência e respeito, que seria a ideal. Como mudar isso?
Acho que ainda estamos longe de uma solução, sao muitos fatores e açoes que podem contribuir para mudaças positivas na integraçao do imigrante na sociedade, mas neste processo transformamos e somos transformados, ensinamos e somos aprendizes somente se estivermos abertos a ver que as nossas identidades sao mutantes e que nao podem ser definidas simplesmente pelo "de onde venho".
Deixamos por aqui, que já sao muitas idéias para pensar...né...
Beijos
Mônica
9 comentários:
Os imigrantes são sempre desprezados nos países em que se instalam, justamente por serem diferentes, e tudo o que é diferente sofre rejeição inicial. No Brasil isso não é tão evidente porque a população é composta de descendentes de imigrantes mas, mesmo assim, vemos o preconceito com os imigrantes recentes. A xenofobia é um fenômeno mundial, não restrita a um ou a outro país. A pergunta é se o imigrante consegue ignorar esse obstáculo e construir o seu espaço no lugar em que escolheu e fazer dele o seu lar; se a resposta for não, independentemente das condições que o levaram a imigrar, o melhor é sempre voltar para a sua própria casa.
Beijo
Adri
Essa idéia de rejeição não caberia mais nos dias de hoje, uma vez que os processos de interação entre os povos são múltiplos e simultâneos.
No entanto, persiste a intolerância.
Edgar Morin fala, em seu livro Terra-Pátria, que a Terra é o mundo de todos e que se não nos conscientizarmos disso, corremos o risco de perdê-la e de nos perdermos com ela. A meu ver, os preconceitos também é um fator de risco para a preservação da Terra.
Quanto às mulheres brasileiras, acho que se criou um estigma pelo fato de serem bonitas, alegres, descontraídas, mas como você diz, nada a ver com a fama que levam.
Bjs
mamy
Oi Adri e Mamy!
Penso assim, existe uma rejeiçao em muitos casos porque a imagem do imigrante é associada com problemas sociais, ainda se cultiva a idéia de imigrante como pessoas de segunda classe que saem do seu país e estao aqui para se sujeitarem a qualquer coisa. Em muitos casos isso pode acontecer, pois há muitos imigrantes que estao ilegal e assim nao tem direito nenhum, mas também há uma outra parcela de imigrantes que vem como profissionais, vem para contribuirem com o crescimento do país em que escolheram para viver, sao os médicos, engenheiros, professores, etc, que sao pessoas qualificadas e nao se sujeitam a qualquer coisa. Por isso ao dizer imigrante colocamos todas essas pessoas no mesmo saco.
Esse é um ponto. o segundo ponto é que o imigrante se encontra com várias barreiras para se integrar, seja ele qualificado ou nao, o primeiro é que se ele nao consegue se comunicar bem no idioma do país em que está dificilmente ele terá acesso a um posto de trabalho que requeira mais qualificaçao, esse é apenas um ponto. É como se existisse uma barreira, um muro que ao ser rompido pode sim mudar a idéia que as pessoas tem do imigrante. Se o médico pudesse ser um argentino, o professor pudesse ser um paquistani, o guarda de transito pudesse ser de qualquer nacionalidade essa visao do estrangeiro mudaria, seria uma posiçao de igual para igual e nao de superior e inferior, sujeitod e 1º classe e sujheito de 2º.
Mas quem chega se mantém afastado da sociedade e por sua vez a sociedade perde a oportunidade de expandir e perceber que o que é diferente pode ser interessante também.
Minha posiçao pessoal é que eu tenho tanto direito de viver aqui ou em qualquer parte do mundo, e me me identifico com o pensamento de Morin neste sentido. O mundo é de todos e nao é por que nascemos em determinado lugar que temos que nos resignar a permanecer neste espaço. Sou a favor do transito, do movimento e do direito de ir e vir de qualquer ser humano.
afeeeee
beijos
Acho que essa questão do imigrante ainda é muito relativa. Mesmo aqui no Brasil, por exemplo, se chega um imigrante europeu, ele é tratado de um modo diferente de um imigrante mexicano. Acho que as pessoas deveriam ser mais abertas para as diferenças, sejam elas culturais ou de quaisquer outros tipos.
Ótimo post!!!
Beijinhos!!
http://mmansur.blogspot.com/
Mônica,
interessante a abordagem do seu texto. Conheço algumas pessoas que foram, ou a trabalho ou porque casaram ou para estudar. Algumas ficarm e não querem nem saber mais do Brasil, o que eu acho super certo, porque aqui as coisas estão de mal a pior e quando algum amigo vislumbra uma luz no fim do tunel dou a maior força. Meu sonho dourado é poder sair do Brasil para Europa, Espanha, França, Alemanha. Mas vejo que a questão da imigração não é um mero probleminha, ao contrário, é o grande impecilho, sofremos preconceito, rejeição e se não nos superamos acabamos vivendo a margem, o que nesse caso é melhor viver dessa droga de Brasil e quando puder voar até ai... É o que tento fazer todo ano.
Execelente texto !!
E apesar de tudo, tudo que você possa sofrer ai, acredite, ainda é melhor que viver aqui.
beijo grande !!
Oi Mariana!
Sabe que às vezes queria vender essa idéia para o meu marido, dizendo que se fossemos para o Brasil ele seria super valorizado que seria tudo lindo e maravilhoso, dizia isso baseando-me justamente nessa filosofia que já está estabelecida, a de que o europeu tem muita vantagem sobre as pessoas de outras nacionalidades e inclusive sobre nós, que tem dinheiro e por isso deve ter tratamento VIP...
Essa ainda é a idéia do colonizado, do que acha que o estrangeiro é o patrao e nós, no nosso humilde país temos que obedecer e servir.
Aqui se utiliza uma expressaoq ue acho que cabe bem a essa situaçao, temos que cambiar o ship, mudar esse discurso e passarmos a nos valorizar mais e valorizar as pessoas por suas qualificaçoes, suas aportaçoes em nossa sociedade independente do país ou continente que ele seja proveniente, se for para somar e contribuir positivamente, que venha!!!
beijinho
mônica
Oi carlinha!!!
Olha só, eu ainda nao tenho essa idéia bem clara, o que seria melhor...conheço tantos casos diferentes, tenho uma amiga que é arquiteta e se realizou ao ser garçonete em um restaurante, nao quer nem pensar em voltar e nem tao pouco trabalhar na sua profissao, conheço gente que está a 5 anos trabalhando na mesma loja, contando os trocos para chegar no fim do mês, conheço gente que nao tem papéis que trabalha em sub-sub-sub emprego e espera o tempo passar pra ter o arraigo, conheço gente que veio estudar, estudou e voltou para o Brasil, no meu caso, vim apra estudar e voltar, mas acabei ficando, tenho consciência q se voltasse hoje para o Brasil teria a possibilidade de ter um status profissional e financeiro que aqui dificilmente obterei, mas ai o que pesa em todos estes casos? Na minha opiniao a qualidade de vida, mesmo trabalhando em uma loja, vc pode viajar, comprar, sair e mesmo sem fazer muita coisa se pode fazer mais do que se estivesse no mesmo tipo de emprego no Brasil... a segurança, as oportunidades...mas por outro lado, é ter tudo isso e nao ter nada ao mesmo tempo, pois nao é ter essa qualidade de vida de uma forma plena...
eu ainda nao sei o que é melhor ou pior...eu trato de tirar o melhor desta experiência ...
beijos!!!
Eh apenas a minha opinião, mas para mim o pior do brasileiro (falo especificamente da classe média) é o menosprezo ao outro. No Brasil a classe média nem olha o vendedor ou o garçon, que são considerados seres inferiores. Tem muita gente que fala (mal) dos franceses, que foram mal servidos em restaurantes ou em lojas, mas aqui o vendedor e o garçon não se sente menor que o cliente de jeito nenhum! Ele não leva desaforo para casa! se for tratado como cachorro, vai devolver na mesma moeda! Mas aí brasileiro que está acostumado a ser servido não entende como ele não se "colocou no seu devido lugar".
Aqui, mesmo em empregos considerados inferiores, a pessoa pode economizar, viajar, levar uma vida digna.
Mencionaste vários pontos muito polémicos:a questao dos preconceitos e dos estereótipos, da imigracao e da intolerancia, e as dificuldades do estrangeiro que vive em um país cuja concepcao é totalmente diferente da sua.
Claro que há muitas vantagens em sair do nosso país e conhecer lugares totalmente diferentes, aprender coisas novas, uma língua ou mais,ser e estar mais aberto as mudancas. Nao nego isso. Mas eu tive que sair do meu país pra ver que nem tudo no Brasil funciona mal,nao é só a nossa educacao, nosso sistema de governo, nossa sociedade, nossa forma de ver a vida, que está mal.
Talvez no Brasil ainda vejamos certa tolerancia e cortesia com outros estrangeiros e com as pessoas em geral (digo, talvez...). Mas a nossa miscigenacao cultural nao garante um país sem preconceitos de todos os tipos e sabores: quanto mais diverso, mais preconceituosos somos (já dizia Roberto Da Matta e Darci Ribeiro!)
Eu mesma alimentei inconscientemente uma forma colonizada de ver as coisas: quis sair do meu país para estudar porque achava que ao regressar, seria valorizada por essa experiencia no estrangeiro. Talvez isso até possa acontecer, mas hoje eu penso diferente: acho que poderia ter sido boa e valorizada no que faco mesmo se estivesse no meu próprio país!Essa ideia de que tudo o que é de fora é melhor do que o que temos no Brasil, é problema de autoestima! Sim, autoestima e visao limitada da realidade!Nao sabemos nos valorizar como brasileiros, consecuentemente, projetamos essa imagem ao resto do mundo.
Curiosamente, fui parar no México, país muito, mas muito parecido ao Brasil. Aquí os mexicanos se sentem desvalorizados porque sao de descendencia indígena, porque a maioria da populacao vive na pobreza, porque os índices de violencia e corrupcao sao, a cada día, assustadores,porque também imigram (aos EUA), e eles também acham que qualquer lugar do mundo é melhor que o México, curioso nao??? Nao se reconhecem no que tem de melhor como pessoas y como sociedade mexicana: amabilidade com que tratam as pessoas, a forma simples de ver a vida, a uniao familiar (sim, aqui a familia ainda é um tesouro), valorizam mais uma boa e farta comida que carros ou o último hit da estacao!
Mas segue o mesmo padrao: a de uma cultura subjugada, oprimida e desvalorada desde a colinizacao, isso se reflete na consciencia coletiva mexicana.
Nao me arrependo, recomendo a experiencia no estrangeiro, mas a cada dia que passa, vejo que no meu país, no Brasil, existem coisas que sao tao ou melhores que em outros países.
E acho que nós, como brasileiros e brasileiras que estamos fora, podemos contribuir para mudar a concepcao que se tem do típico brasileiro no estrangeiro. Disso eu tenho certeza e eu faco a minha parte!
Gostei muito do post!
beijinhossss
Postar um comentário